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Maior sindicato de maquinistas de Espanha anuncia greve geral após acidentes
As mortes de dois maquinistas em acidentes ferroviários em Adamuz (Córdoba) e Gelida (Barcelona) levaram os representantes dos trabalhadores ao limite.
O sindicato espanhol de maquinistas de comboios Semaf anunciou esta quarta-feira uma "greve geral" para reivindicar garantias de segurança na rede ferroviária de Espanha, depois dos acidentes desta semana, em que morreram mais de 40 pessoas.
O Semaf, que diz representar 85 por centos dos maquinistas, anunciou uma greve geral em todo o setor "para dar suporte legal e apoio às mobilizações de trabalhadores e utentes, de forma a exigir que a segurança e a fiabilidade da rede sejam garantidas", segundo um comunicado.No entanto, o sindicato, que não avança com datas concretas para a paralisação, considera "inadmissível a deterioração" da rede ferroviária espanhola e pediu medidas urgentes, assim como que sejam responsabilizadas penalmente "as pessoas encarregadas de garantir a segurança da infraestrutura".
O Semaf recomenda ainda que os maquinistas tomem outra medida excecional: reduzir a velocidade operacional, independentemente dos limites estabelecidos, nas áreas onde percebam riscos devido às condições meteorológicas ou ao estado da infraestrutura.O sindicato classificou a "deterioração constante da ferrovia" como "inaceitável" e exige medidas urgentes para garantir a segurança tanto dos funcionários como dos passageiros.
Esta quarta-feira, o Semaf exigiu o encerramento de troços da rede ferroviária espanhola “em situações semelhantes às da Catalunha devido às condições meteorológicas adversas”.
A recomendação aos maquinistas de todas as companhias ferroviárias é que exijam que “a sua segurança seja garantida ao longo do percurso”. Caso estas garantias não sejam prestadas, o sindicato acredita que a medida adequada é “adaptar a velocidade do comboio às condições reais de funcionamento da infraestrutura”. Por outras palavras, conduzir abaixo dos limites de velocidade.
O sindicato exige ainda que a reabertura do serviço ferroviário suburbano de Rodalies na Catalunha não ocorra "sem garantias de segurança suficientes para a operação". Os comboios suburbanos da Catalunha estão todos parados esta quarta-feira, depois do acidente de terça-feira à noite, para serem inspecionadas todas as vias, por decisão da empresa Adif, que gere as infraestruturas ferroviárias em Espanha.
A comissão executiva do Semaf já tinha exigido na noite de terça-feira a suspensão do serviço de comboios suburbanos na Catalunha, operado pela Renfe.
O Semaf chegou a emitir um alerta aos maquinistas para que não retomassem as viagens quando chegassem às estações.
O sindicato atribui o acidente com o comboio da Rodalies em Gelida à tempestade, quando um muro de contenção desabou sobre os carris, atingindo o comboio. As chuvas provocaram também um deslizamento de rochas sobre os carris em Maçanet, fazendo descarrilar outro comboio, neste caso sem feridos.
O acidente na Catalunha, nordeste de Espanha, em que morreu um maquinista estagiário e 37 pessoas ficaram feridas, cinco delas com gravidade, ocorreu quando o comboio chocou com um muro de contenção que derrocou devido, aparentemente, segundo as autoridades locais, ao temporal e às chuvas fortes que atingem a região.
Houve ainda registo de outro acidente, no mesmo dia, com outro comboio suburbano na região que chocou com uma pedra caída na via, não tendo neste caso havido qualquer tipo de vítimas.
A Adif, a operadora ferroviária estatal, revelou que foi detetada também uma árvore caída numa das linhas, além de ter registado outras incidências, e garantiu que a empresa está a trabalhar para solucionar todos estes problemas com a maior brevidade possível.
Apesar de serem circunstâncias imprevistas, os representantes dos maquinistas já exigem medidas urgentesGoverno confiante que greve não avança
O ministro espanhol dos Transportes, Óscar Puente, explicou que a Adif decidiu limitar a velocidade a 160 quilómetros por hora num troço da linha de alta velocidade entre Madrid e Barcelona, depois de os maquinistas terem reportado 25 incidentes na passada terça-feira.
Contudo, salientou que tinham reportado apenas um incidente no dia anterior, nenhum nos dias anteriores e um total de oito ao longo de toda a semana anterior. Por isso, atribuiu a medida ao "estado moral" da equipa após o acidente com o comboio Adamuz. "Estão claramente afetados e estão a agir desta forma", afirmou. Jornal da Tarde | 21 de janeiro de 2026
Em relação à greve dos maquinistas, Puente anunciou que se vão reunir "para conversar" e "tentar evitar que ela aconteça". O ministro dos Transportes justificou a convocação da greve no contexto do "estado emocional" do grupo "após a morte de dois colegas esta semana". "Veremos se conseguimos resolver a situação", afirmou.
Dois maquinistas morreram em acidentes ferroviários
A gota de água para o sindicato foi o acidente fatal da noite de terça-feira na rede ferroviária suburbana catalã de Rodalies.
O maquinista falecido era um jovem de 28 anos de Sevilha que estagiava na Renfe e tinha escolhido a Rodalies para completar a sua formação. Segundo a polícia catalã, a bordo da composição seguiam quatro maquinistas, o principal e outros três em estágio.
Outro maquinista espanhol morreu no acidente com comboios de alta velocidade, no domingo, em Adamuz, Córdova, na Andaluzia.
O Semaf reporta uma terceira fatalidade sem fornecer mais detalhes, levantando a possibilidade de esta pessoa estar a viajar no comboio Renfe Alvia envolvido no acidente de domingo à tarde. No entanto, esta informação não foi confirmada pela operadora ferroviária estatal.
A sindicato exige "responsabilização criminal dos responsáveis pela segurança na infraestrutura ferroviária" pelos dois incidentes, que resultaram em mortos e dezenas de feridos, no domingo e na terça-feira.“Preciso que parem o trânsito nos carris com urgência, por favor”
O maquinista do comboio Iryo, que foi atingido por um comboio Alvia perto de Adamuz (Córdoba) no domingo, contactou o centro de controlo de Atocha por telefone às 19h45 para comunicar que o seu comboio tinha sofrido uma “colisão” e descarrilado.
A transcrição da conversa, que foi confirmada pelo jornal El País através de fontes próximas da investigação, mostra ainda que o maquinista não sabia inicialmente que outro comboio estava envolvido no incidente e tinha colidido com as últimas carruagens do seu comboio.
Com efeito, o operador, ao aperceber-se que várias carruagens da composição tinham invadido os carris em sentido contrário, solicitou, numa segunda comunicação, que o trânsito fosse interrompido na zona. “Preciso que o trânsito nos carris seja interrompido urgentemente, por favor”, ouve-se o maquinista dizer na gravação do gravador eletrónico de dados do comboio, popularmente conhecido por “caixa negra”, um sistema computorizado que regista os dados da viagem, incluindo as conversas do maquinista na cabine e a velocidade durante o percurso.
Na primeira das duas conversas gravadas, o maquinista relata que o seu comboio está parado perto da cidade de Córdoba, depois de se aperceber do que chama de “um problema técnico”.
A investigação procura determinar se o incidente foi resultado de uma falha no comboio ou de uma rutura nos carris. O tom do maquinista nesta comunicação é calmo. De facto, o funcionário da Iryo indica que agiu baixando o pantógrafo, um dispositivo instalado no tejadilho do comboio que utiliza a energia da rede aérea para funcionar.
Naquele momento, ainda não sabia que três das carruagens tinham descarrilado, nem que havia mortos e feridos entre os passageiros. De acordo com o protocolo de segurança, o maquinista solicitou autorização à central de controlo para sair da cabine do comboio Iryo Frecciarossa número 6189, que fazia o percurso Málaga-Madrid, para "avaliar" a situação, o que implicava descer até aos carris.
Restabelecido o limite de 300 km/h em parte da linha Madrid-Barcelona
As equipas de manutenção da Adif, a empresa pública que gere a rede ferroviária, trabalharam durante toda a noite a inspecionar a linha de alta velocidade Madrid-Barcelona para restabelecer as velocidades normais de operação após uma redução excecional para 160 km/h implementada na terça-feira num troço de 150 quilómetros.
O troço afetado da linha vai desde Mejorada del Campo, ao quilómetro 34,8 em Madrid, até Alhama de Aragón, ao quilómetro 182,9, já na província de Saragoça.
A restrição foi levantada na manhã desta quarta-feira em quase todo o troço, com quatro pontos a apresentarem ainda restrições que limitam os comboios a uma velocidade máxima de 230 km/h.
Os quatro pontos críticos onde as medidas de segurança devem ser intensificadas são os quilómetros 27,16 e 138,6 da via 1 e os quilómetros 50,84 e 143,76 da via 2.
“Estes quatro pontos serão inspecionados durante o próximo período de manutenção (de quarta-feira à noite até quinta-feira de manhã), com a possibilidade de as restrições serem levantadas”, afirmou a Adif em comunicado de imprensa.
No ano passado, os maquinistas pediram à Adif que limitasse a velocidade
devido à preocupação com a deterioração de várias linhas de alta
velocidade de Espanha, após a abertura da rede à concorrência privada em
2020, oferecendo alternativas de baixo custo aos comboios da empresa
estatal Renfe.
Os trabalhos de manutenção serão intensificados na noite de quarta-feira e, possivelmente, nas noites seguintes, para garantir que os comboios da Renfe, Iryo e Ouigo possam circular às velocidades definidas pela Adif e permitidas pela Agência Estatal de Segurança Ferroviária.
A redução da velocidade tinha aumentado o tempo de viagem entre as duas maiores cidades do país em mais de meia hora, elevando o tempo total da viagem para entre duas horas e meia e três horas.
c/ agências